Qual a diferença entre mórmon e evangélico?
Se você perguntar a um evangélico e a um Santo dos Últimos Dias o que separa os dois, quase sempre vai ouvir falar do Livro de Mórmon. Essa é a diferença visível, e é o lugar errado de começar. O desacordo que está por baixo é sobre Deus: que tipo de ser Ele é, se Ele ainda fala e quem tem autoridade para falar em Seu nome.
Todo o resto vem daí. Comece pela doutrina de Deus e as outras diferenças deixam de parecer uma lista e passam a parecer consequências.
Onde os dois realmente concordam
As duas tradições creem que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que Ele viveu sem pecado, que morreu e ressuscitou em corpo, e que ninguém se reconcilia com Deus sem Ele. As duas leem a Bíblia como escritura, oram em nome de Cristo e organizam a semana em torno do culto. As duas enviam missionários, porque as duas acham que a mensagem importa o bastante para incomodar estranhos com ela.
Nada disso é diplomacia.
Um evangélico e um Santo dos Últimos Dias orando juntos reconheceriam quase tudo o que o outro dissesse, e os dois estariam falando sério.
A natureza de Deus
O evangélico confessa a Trindade como os credos históricos a definem: um só Deus que existe eternamente como Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas que compartilham uma única essência divina, indivisível. Deus não tem corpo. Ele criou tudo do nada, e o abismo entre Criador e criatura nunca é atravessado por uma criatura que se torna divina.
O Santo dos Últimos Dias ensina que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três seres distintos, perfeitamente unidos em propósito, vontade e amor, e que o Pai e o Filho têm corpos físicos glorificados. Ensina também que os seres humanos são, literalmente, filhos espirituais de Deus, e que o propósito da existência é crescer até se tornar como Ele.
De um lado, um Deus sem corpo e um abismo que a criatura jamais atravessa. Do outro, um Pai com corpo glorificado e filhos que podem crescer até se tornar como Ele.
Essa última ideia, a exaltação, é a que mais alarma o evangélico, e o alarme não é um mal-entendido. Se a distinção entre Criador e criatura é o alicerce do monoteísmo bíblico, uma doutrina em que o ser humano compartilha a natureza de Deus parece remover justamente esse alicerce.
Os dois lados argumentam a partir dos mesmos textos. O Santo dos Últimos Dias aponta para Jesus orando ao Pai, para Estêvão vendo “a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus” (Atos 7:55) e para a oração de Cristo “a fim de que todos sejam um”: “como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós” (João 17:21) — uma unidade que os discípulos podem compartilhar, o que sugere que não se trata de unidade de substância.
O evangélico aponta para o prólogo de João, onde “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1), e para Tomé chamando o Cristo ressuscitado de “Senhor meu e Deus meu!” (João 20:28). Para ele, os credos não foram filosofia grega importada para dentro da Bíblia. Foram a tentativa da Igreja de segurar juntos os textos que chamam Jesus de Deus sem acabar adorando dois deuses.
O evangélico que ler isto precisa saber que o Santo dos Últimos Dias não pensa estar rebaixando Cristo. E o Santo dos Últimos Dias precisa saber que a fórmula trinitária não é uma tentativa de esconder três deuses sob um disfarce, nem um só Deus usando três máscaras. As duas ideias foram condenadas como heresia, e nenhuma delas é o que um trinitário cuidadoso defende.
De onde vem a doutrina
O evangélico sustenta a sola scriptura: só a Escritura é a regra final e infalível da fé. A tradição, os credos e os pastores têm autoridade real, mas todos respondem à Bíblia. O texto de sempre é 2 Timóteo 3:16-17, onde toda a Escritura “é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”.
Dito com cuidado, sola scriptura não quer dizer “eu e minha Bíblia trancados num quarto”. Quer dizer que a Escritura é a última instância de apelação, não a única. Essa distinção se perde na maioria das críticas ao conceito, e perdê-la é construir um argumento contra uma posição que nenhum evangélico ponderado defende.
O Santo dos Últimos Dias sustenta que Deus ainda chama profetas e que o cânon está aberto. Lê Amós (“Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas”, Amós 3:7) como descrição de como Deus age, não de como Ele agia. Lembra também que o Novo Testamento foi escrito por gente que estava, ela mesma, produzindo escritura nova.
O concílio de Jerusalém, em Atos 15, é o exemplo que os membros mais citam, e vale descrevê-lo com precisão. O que Lucas mostra não é um oráculo caindo do céu. É um corpo apostólico deliberando sob a direção do Espírito, com a experiência de Pedro em Cesareia, o relato de Paulo e Barnabé, e Tiago recorrendo à Escritura. A conclusão sai assinada pelos dois lados: “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (Atos 15:28).
E há aí um detalhe que vale conferir de Bíblia aberta. O texto que Tiago cita é Amós 9:11-12, e em Amós a NAA traz “para que o meu povo tome posse do restante de Edom e de todas as nações que são chamadas pelo meu nome”, uma promessa de território a Israel que não fala da entrada dos gentios. Em Atos 15:17, seguindo o grego da Septuaginta, a mesma profecia aparece como “Para que o restante da humanidade busque o Senhor, juntamente com todos os gentios”. A diferença nasce de ler uma palavra hebraica como “buscar” em vez de “possuir”, e os especialistas divergem sobre qual leitura é a original. Há estudiosos protestantes que defendem que a Septuaginta preserva o texto mais antigo e que o hebraico massorético é que se alterou. Em qualquer das hipóteses, a conclusão do concílio não foi extraída do sentido claro do texto que todos tinham em mãos. A Escritura confirmou o que o Espírito já havia mostrado.
A resposta evangélica é que a era apostólica foi única justamente porque a revelação ainda estava sendo dada. O argumento é cumulativo, e é mais forte do que costuma parecer. Pesa a estrutura do próprio Novo Testamento, o modo como apresenta os apóstolos como fundamento lançado uma vez só, e pesam textos como Judas 1:3, que exorta o leitor a “lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”.
A resposta do Santo dos Últimos Dias não é negar que exista um depósito apostólico normativo. É perguntar o que falta entre esse depósito e o fechamento permanente da revelação. Judas estabelece uma fé apostólica entregue de uma vez, mas não diz que essa fé se identifica exatamente com o cânon protestante que só seria fixado séculos depois, nem que nenhuma revelação futura é possível. Para ir de um ponto ao outro é preciso acrescentar afirmações sobre a história da Igreja e sobre o cânon que o próprio texto não faz. E nenhum evangélico aponta um versículo que encerre o cânon, porque não existe nenhum.
Judas estabelece uma fé apostólica entregue de uma vez. Ele não diz que essa fé se identifica com o cânon que só seria fixado séculos depois.
Então o impasse é real, e nenhum dos dois lados está sendo desleixado. Ou a suficiência é algo que a Bíblia reivindica para si, ou é algo que a Igreja concluiu a respeito dela — e onde você fica nesse ponto decide quase todo o resto.
Salvação
Antes de comparar, é preciso desfazer uma confusão de vocabulário, porque a palavra “salvação” não significa a mesma coisa nos dois lados. Boa parte das brigas entre evangélicos e Santos dos Últimos Dias sobre fé e obras é, no fundo, uma briga entre duas definições que ninguém alinhou.
O evangélico ensina a justificação somente pela fé. Ser justificado é ser declarado justo diante de Deus, e isso acontece pela confiança em Cristo, sem que nenhuma obra humana entre no veredito. “Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).
Justificação, porém, não é o conjunto da salvação. A teologia evangélica também fala de regeneração, santificação, perseverança e glorificação, e nenhuma escola evangélica séria trata a santificação como opcional. O mesmo Paulo escreve, no versículo seguinte, que “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). As obras não compram o veredito. Mas um cristão que não produz nenhuma tem, para o evangélico, um problema sério.
Convém acrescentar que não existe uma soteriologia evangélica única. A divisão entre calvinistas e arminianos sobre eleição, graça irresistível e a possibilidade de perder a salvação é antiga e continua viva. Quem descreve “o que os evangélicos creem sobre salvação” como bloco único errou antes de começar.
Do lado dos Santos dos Últimos Dias, a palavra cobre pelo menos quatro coisas diferentes, e é daí que nasce quase todo o mal-entendido. A primeira é a ressurreição, que pela expiação de Cristo alcança todos, sem exceção e sem condição. A segunda é o perdão dos pecados, recebido pela graça de Cristo mediante fé, arrependimento e uma vida de discipulado. O texto que os membros citam aqui é a resposta de Pedro no Pentecostes, “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados” (Atos 2:38).
A terceira são os graus de glória. Os Santos dos Últimos Dias não trabalham com um esquema de céu ou inferno. Leem Paulo quando ele diz que “há corpos celestiais e corpos terrestres” e que “até entre estrela e estrela há diferenças de glória” (1 Coríntios 15:40-41), e entendem que quase toda a humanidade herdará algum reino de glória. Quem não se arrepende será punido pelos seus pecados, mas essa punição tem fim. Não é o tormento consciente eterno que a tradição ocidental imagina. A quarta é a exaltação, a vida na plena presença do Pai, e é para ela que a estrutura completa de convênios e ordenanças importa.
Quase toda a humanidade herdará algum reino de glória. Quando o Santo dos Últimos Dias diz que as ordenanças são necessárias, ele não está falando de escapar do inferno.
Isso muda a frase que mais assusta o evangélico. Quando o Santo dos Últimos Dias afirma que o batismo e os convênios seguintes são necessários, a pergunta certa é “necessários para quê”. Para a exaltação, sim. Não para escapar de um inferno eterno, porque não é isso que a maioria enfrenta nessa escatologia. O evangélico que entende “os mórmons acham que todo mundo fora da igreja deles está perdido” entendeu errado, e o Santo dos Últimos Dias que fala sem fazer a distinção ajudou a criar o mal-entendido.
Feita a distinção, sobra um desacordo real, e ele é sobre autoridade. Os Santos dos Últimos Dias sustentam que as ordenanças precisam ser realizadas por quem tem autoridade do sacerdócio. Para o evangélico, isso faz a salvação depender de uma instituição em vez de depender de Cristo. A réplica é que o próprio Cristo instituiu as ordenanças e foi batizado sob elas, e que os convênios não são pedágio. São o modo como a pessoa se vincula a Cristo e declara lealdade a Ele. O que os Santos dos Últimos Dias dizem estar em jogo, no fim, é o coração e a relação com Jesus Cristo. As ordenanças servem para aproximar disso, não para substituir isso.
Os dois lados tentam conciliar Paulo e Tiago (“a fé, se não tiver obras, por si só está morta”, Tiago 2:17), e cada um teme uma perda concreta. O evangélico teme que a graça vire salário. O Santo dos Últimos Dias teme que o discipulado vire opcional.
A Restauração
É esta a afirmação que faz do Santo dos Últimos Dias outra coisa que não mais uma denominação protestante, e ela merece ser dita com todas as letras. Também merece precisão, porque a versão caricata circula dos dois lados.
O Santo dos Últimos Dias não afirma que o cristianismo desapareceu da terra. A Bíblia continuou, o culto continuou, houve bispos, houve teólogos sérios e houve cristãos sinceros em todos os séculos. O que se perdeu, nessa leitura, foi a autoridade apostólica e o governo por revelação que vinha com ela. É por isso que falam em restauração e não em reforma. Joseph Smith relatou que o Pai e o Filho lhe apareceram em 1820 e que a autoridade do sacerdócio foi conferida depois por mensageiros ressuscitados. A Igreja foi organizada em 1830.
A Reforma quis corrigir a Igreja. A Restauração afirma que a Igreja precisava ser fundada de novo.
O evangélico rejeita isso pela raiz, e vale apresentar a objeção dele na versão forte. Um batista ou um reformado não se comove com sucessão episcopal ininterrupta, porque não acredita que uma linha de bispos seja o que estabelece autoridade divina. O argumento dele é outro. Cristo prometeu preservar a Sua Igreja. Os apóstolos lançaram um fundamento que não precisava ser lançado de novo. O ensino deles sobreviveu na Escritura. Presbíteros e bispos locais continuaram depois da morte deles. E o registro histórico mostra desenvolvimento doutrinário e corrupção, que é coisa bem diferente do desaparecimento do cristianismo ou de uma revogação universal da autoridade de Cristo.
O Santo dos Últimos Dias responde que os próprios escritores do Novo Testamento previram uma deterioração séria. Paulo avisa os presbíteros de Éfeso que “aparecerão no meio de vocês lobos vorazes, que não pouparão o rebanho” e que “até mesmo entre vocês se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás de si” (Atos 20:29-30), e escreve aos tessalonicenses que o dia do Senhor não chega “sem que primeiro venha a apostasia” (2 Tessalonicenses 2:3).
Cabe aqui uma observação de honestidade sobre um texto que os membros costumam citar. Atos 3:21 fala dos “tempos da restauração de todas as coisas”, e é comum ouvir isso como se Pedro estivesse descrevendo 1830. No contexto, o sentido mais natural é escatológico, ligado à volta de Cristo e ao cumprimento das esperanças proféticas. O Santo dos Últimos Dias pode, com coerência, entender a Restauração como parte dessa restauração maior. O que não se sustenta é usar o versículo como prova exegética de uma restauração de autoridade no século XIX. Quem faz isso entrega ao crítico uma vitória fácil.
Repare que esse desacordo sozinho gera todos os outros. Se a autoridade se perdeu, revelação nova e escritura nova são necessárias, e o cânon precisa estar aberto. Se não se perdeu, nenhuma das duas é.
Os evangélicos consideram os Santos dos Últimos Dias cristãos?
A maioria não considera, e fingir o contrário não ajuda ninguém.
A posição evangélica costuma ser definicional, não pessoal. “Cristão”, nessa leitura, tem conteúdo fixado pelos credos — um só Deus em três pessoas, Cristo da mesma substância que o Pai, criação a partir do nada — e uma igreja que rejeita isso e ainda chama os credos de corrupção saiu da categoria, por mais sinceros e corretos que sejam os seus membros. Muitos evangélicos dirão, com afeto sincero, que os Santos dos Últimos Dias são vizinhos exemplares e dedicados à família, e ainda assim recusarão o rótulo.
Para o evangélico, “cristão” é uma categoria definida pelos credos. Para o Santo dos Últimos Dias, é uma questão de a quem se adora.
O Santo dos Últimos Dias acha isso doloroso e injusto. A igreja dele leva o nome de Cristo, o culto é dirigido ao Pai em nome de Cristo, e ele crê que Cristo é o Salvador.
Vale registrar uma assimetria, com honestidade, porque ela pesa contra a queixa do Santo dos Últimos Dias: a afirmação da Restauração também é exclusiva. Ela diz que as outras igrejas não têm autoridade do sacerdócio e que as ordenanças delas não valem. Os dois lados fazem uma afirmação que exclui o outro. A diferença é que o evangélico costuma dizer isso em voz alta com mais frequência.
Conversando de forma útil
Três coisas melhoram essa conversa.
Comece por Deus, não pelo Livro de Mórmon. O livro é consequência do desacordo, e discutir arqueologia antes de estabelecer o que cada lado entende por Deus gera calor sem luz.
Apresente a posição do outro num formato que ele assinaria embaixo. O evangélico que descreve a exaltação como “mórmon acha que vai ganhar um planeta” trocou a doutrina por uma caricatura. O Santo dos Últimos Dias que descreve a Trindade como “três deuses fingindo ser um” fez a mesma coisa, na direção contrária.
E diga com todas as letras quais perguntas estão de fato em aberto. Se o cânon está fechado, se a autoridade se perdeu, se Cristo é um só ser com o Pai. São desacordos genuínos sobre o que é verdade, e tratá-los como mal-entendidos a esclarecer é um jeito de não levar nenhum dos dois lados a sério.
O que seria preciso para você mudar de ideia? Os dois lados deveriam conseguir responder. Boa parte do valor da conversa está em descobrir se conseguem.
As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA), © Sociedade Bíblica do Brasil.