
Os mórmons acreditam que Jesus é Deus?
A resposta curta tem três partes: sim, Jesus é Deus. Não, Jesus não é o mesmo Ser que o Pai. E a chave para entender as duas afirmações ao mesmo tempo está em compreender o que os santos dos últimos dias querem dizer quando usam a palavra “Deus.”
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias afirma a veracidade do Livro de Mórmon e o trata como escritura tal como a Bíblia. A própria página titular do Livro de Mórmon declara que o propósito do livro é convencer o mundo de que “Jesus é o Cristo, o Deus Eterno.”
No entanto, quando se fala “Deus” para os santos dos últimos dias, eles geralmente pensam em Deus, o Pai Celestial. Se você perguntar “Jesus é Deus?”, pode ser que interpretem a pergunta como “Jesus é o Pai?” e a resposta será não. Para entender a resposta completa, é preciso compreender o que os santos dos últimos dias querem dizer quando usam a palavra “Deus” e qual é o papel do Pai como fonte e padrão de toda a divindade.
O Pai como fonte da divindade
Na teologia de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o Pai Celestial é o ser supremo a quem adoramos e a fonte de toda a divindade. O próprio Cristo afirma isso em João 5:26: “Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo.” A vida divina do Filho vem do Pai. O Pai não é apenas o mais antigo ou o mais importante dos três, é o padrão e a origem da natureza divina.
Isso tem implicações importantes. Jesus Cristo é plenamente divino, não como um ser independente que simplesmente possui atributos divinos, mas como o Filho que recebeu do Pai a plenitude da glória e da divindade. A relação entre Pai e Filho é real, não apenas funcional ou simbólica. O Pai exaltou o Filho, e é por isso que Jesus pode ser chamado de Deus sem que isso implique que o Filho e o Pai sejam o mesmo ser ou que existam dois deuses independentes e concorrentes.
O que significa “Deus” na teologia SUD?
Na teologia SUD, “ser Deus” não é apenas um título abstrato. É um tipo de ser, um estado de existência com natureza divina, glória, autoridade e perfeição moral. Ser Deus não é apenas ter poder; é possuir uma vida perfeita e glorificada, com amor, justiça, conhecimento e autoridade para criar, salvar e santificar.
No uso SUD, “Deus” pode significar duas coisas: o Pai como Ser Supremo a quem adoramos, ou um ser divino, membro da Divindade. Jesus é Deus no segundo sentido, plenamente divino, sem ser a mesma pessoa que o Pai.
Em termos práticos, ser Deus envolve glória e perfeição, ou seja, a plenitude de vida divina, pureza, poder e conhecimento. Envolve também poder e autoridade legítima, não apenas força, mas o direito de governar, julgar, salvar e santificar. Envolve amor perfeito, justiça e misericórdia, pois Deus ama de forma completa e a salvação envolve misericórdia real, não tolerância ao mal. E envolve vida eterna e paternidade real, pois Deus é literalmente Pai, Pai de Jesus em um sentido único e Pai dos nossos espíritos, e deseja que Seus filhos participem de Sua natureza divina (2 Pedro 1:4).
A Divindade: Pai, Filho e Espírito Santo
Os santos dos últimos dias falam da Divindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Eles são um em propósito, vontade e obra, mas três pessoas distintas (Artigos de Fé 1).
O Pai é “Deus” no sentido de Ser Supremo a quem adoramos e a fonte da divindade. Jesus Cristo também é chamado de Deus nas escrituras por ser plenamente divino, mas não é o mesmo ser que o Pai. O Espírito Santo é o terceiro membro da Divindade, também distinto em personalidade.
Isso resolve a aparente tensão: Jesus é Deus e o Pai é Deus, sem dizer que Eles são a mesma Pessoa ou Ser. Os três compartilham uma natureza divina e têm um relacionamento de profundo amor. Juntos, Eles trabalham para nos tornar “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4) e conformar nossa vontade com a perfeita vontade de Deus (Romanos 12:2).
Nota importante: Os santos dos últimos dias não afirmam os credos históricos, como Niceia, Constantinopla ou Calcedônia. Não usamos a linguagem metafísica dos credos para explicar a relação entre a divindade e a humanidade de Cristo; preferimos a linguagem revelada nas escrituras.
Em que sentido Jesus é Deus?
No uso SUD, “Deus” pode se referir ao Pai (Ser Supremo) ou a qualquer membro divino da Divindade. Quando dizemos que Jesus é Deus, estamos dizendo que Ele é plenamente divino, não que Ele é o Pai. E essa divindade não é independente: ela vem do Pai, que a conferiu ao Filho.
Para os santos dos últimos dias, Jesus é Deus porque Ele é o Filho divino, um com o Pai em vontade e obra. É também o Jeová do Velho Testamento, pois na leitura SUD, Jesus é o YHWH das escrituras hebraicas. É o Criador, pois sob a direção do Pai, Ele criou a Terra e tudo nela. É o Redentor, com poder de resgatar do pecado e da morte. E possui a plenitude da glória conferida pelo Pai.
Jesus é Deus não como um ser independente que simplesmente possui atributos divinos, mas como o Filho que recebeu do Pai a plenitude da glória e da divindade.
Importante: não acreditamos que Jesus Cristo seja uma criatura “criada do nada.” Ele existe desde o princípio e participa da obra criadora sob o Pai. A linguagem de “Primogênito” e “Unigênito” expressa filiação divina, não criação como criatura.
Evidências escriturísticas
João 1: a preexistência e divindade de Cristo
João 1 é lido pelos santos dos últimos dias como uma declaração direta de três verdades fundamentais: a preexistência e divindade de Cristo, a distinção real entre o Pai e o Filho, e a missão salvadora de Jesus como “luz”, “verdade” e “evangelho.”
“No princípio era o Verbo” significa que Jesus existia antes de nascer. “O Verbo estava com Deus” é lido como evidência de que o Filho não é a mesma pessoa que o Pai: Eles estão juntos, mas são distintos. “O Verbo era Deus” afirma que Jesus é plenamente divino, o Senhor e Redentor, participante da glória e autoridade de Deus.
“Todas as coisas foram feitas por ele” sustenta a ideia de que Jesus teve um papel real na Criação, sob a direção do Pai. E “o Verbo se fez carne” é lido literalmente: o Ser divino que existia com o Pai entrou na mortalidade, viveu entre nós, revelou o Pai e realizou a Expiação.
Mosias 15: Abinádi declara que Cristo é Deus
No Livro de Mórmon, Mosias 15 é um dos textos mais diretos sobre a divindade de Jesus Cristo. O profeta Abinádi defende que o Messias não seria “só um profeta”, mas o próprio Deus vindo redimir Seu povo. A tese vem logo no versículo 1: “O próprio Deus descerá entre os filhos dos homens e redimirá seu povo.” Quem “desce” e “redime” aqui é o Cristo: Abinádi está chamando Cristo de Deus.
Abinádi antecipa a confusão sobre como Cristo pode ser “Pai” e “Filho” e explica: Cristo é chamado Filho porque vem “segundo a carne” (mortalidade), e é chamado Pai num sentido ligado ao poder divino e por ser o “pai”/cabeça do povo que Ele redime. A conclusão explícita é: “Sendo o Pai e o Filho, um só Deus.” (Mosias 15:4)
Mosias 3:5: o Senhor Onipotente descerá dos céus
Outro texto poderoso do Livro de Mórmon identifica Cristo como “o Senhor Onipotente” que “era e é de toda a eternidade para toda a eternidade”, descrevendo-O com linguagem inequivocamente divina antes de declarar que Ele desceria para habitar na mortalidade e realizar milagres entre os filhos dos homens. (Mosias 3:5)
“O Cristo Vivo”: declaração oficial da Igreja
“O Cristo Vivo”, declaração oficial da Primeira Presidência e do Quórum dos Doze Apóstolos, afirma que a vida de Cristo “não começou em Belém” e que “sob a direção de Seu Pai, Ele foi o criador da Terra”, citando João 1:3. A linguagem oficial da Igreja, “Filho Primogênito e Unigênito do Pai Celestial”, mostra que a crença SUD não é que “Deus criou Jesus como uma criatura”, mas que Jesus é o Filho com identidade divina que existia antes da mortalidade.
Objeções comuns
”Primogênito” significa “criado”?
Os santos dos últimos dias usam “gerado”, “primogênito” e “unigênito” como linguagem de filiação, e ao mesmo tempo afirmam claramente a preexistência de Cristo e Seu papel como Criador sob a direção do Pai. A doutrina SUD não ensina que Jesus foi “criado do nada” como uma criatura, mas que Ele é o Filho de Deus com identidade e natureza divinas.
”Se Jesus é Deus e o Pai é Deus, vocês são politeístas?”
Essa objeção é frequente, e a resposta depende de como se define “politeísmo.” Se politeísmo significa adorar múltiplos deuses independentes e concorrentes, então não: os santos dos últimos dias não são politeístas. Adoramos o Pai, em nome do Filho, pelo poder do Espírito Santo. O Pai é o Ser Supremo a quem dirigimos nossa adoração e a fonte de toda a divindade. É precisamente essa primazia do Pai que mantém a teologia SUD longe de qualquer forma de politeísmo.
Uma forma útil de pensar na Divindade é como uma monarquia: o Pai é o Rei, o Soberano supremo de quem toda autoridade emana. O Filho e o Espírito Santo participam plenamente da obra divina, mas o Pai está no topo, é a fonte, o padrão e o objeto central de nossa adoração. Assim como uma monarquia não é uma democracia de deuses iguais, a Divindade SUD não é uma coleção de divindades independentes.
Pai, Filho e Espírito Santo são três pessoas distintas, mas estão perfeitamente unidos em propósito, vontade, amor e obra. Não são deuses concorrentes com agendas diferentes. O próprio Jesus orou ao Pai para que Seus discípulos fossem “um” assim como Ele e o Pai são “um” (João 17:21-22), uma unidade de propósito, não de substância. Essa é a chave SUD para entender a Divindade: unidade real e profunda entre seres distintos, com o Pai como fonte e padrão.
Conclusão
Os santos dos últimos dias acreditam firmemente que Jesus Cristo é Deus. Ele é o Filho divino do Pai, o Jeová do Velho Testamento, o Criador da Terra e o Redentor da humanidade. Ele possui a plenitude da glória e da divindade, recebida do Pai que é a fonte de toda a divindade.
Ao mesmo tempo, Ele não é a mesma pessoa que o Pai. Pai, Filho e Espírito Santo são três seres distintos, unidos em propósito, vontade e amor perfeito, com o Pai como Ser Supremo e fonte da natureza divina. É essa visão, de um Deus pessoal, real, que desceu dos céus para habitar entre nós, sofrer por nós e nos resgatar, que está no coração da fé dos santos dos últimos dias.
REFERÊNCIAS
- Livro de Mórmon, página titular. churchofjesuschrist.org
- João 1:1-18; 5:26; 17:21-22.
- Mosias 3:5; 15:1-5.
- Artigos de Fé 1.
- 2 Pedro 1:4; Romanos 12:2.
- “O Cristo Vivo: O Testemunho dos Apóstolos.” Primeira Presidência e Quórum dos Doze Apóstolos, 2000. churchofjesuschrist.org

