
Os mórmons são cristãos?
Sim, os mórmons são cristãos e o peso das evidências mostra por quê. Sou membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e tenho fé de que o Jesus Cristo do Novo Testamento é meu Salvador e Redentor. Acredito que todos que confessam o mesmo, mesmo com diferenças reais e profundas em doutrina, também são cristãos.
Mas essa não é apenas uma opinião pessoal. Neste artigo, vou mostrar que, quando examinamos a palavra “cristão” com cuidado, na Bíblia, no uso comum, na história e até nos Pais da Igreja, a resposta mais honesta e mais bem fundamentada é sim.
Então, por que existe debate? Porque a palavra “cristão” é usada de jeitos diferentes por pessoas e instituições diferentes. Quando alguém diz “sim” e outro diz “não”, muitas vezes eles estão respondendo perguntas diferentes com a mesma palavra. Para esclarecer, vou examinar cinco fontes de definição:
- Significado interno (SUD)
- Significado secular (dicionários e uso comum)
- Significado denominacional (fronteiras teológicas e eclesiais)
- Significado bíblico
- Significado dos Pais da Igreja Primitiva
Para ser claro desde o início: quando digo “cristão”, quero dizer alguém que confessa Jesus Cristo como Senhor e Salvador e busca segui-Lo como discípulo. Essa é a definição que vou defender como a mais bíblica, a mais antiga e a mais amplamente usada.
Pela definição bíblica, pelo uso comum, pela autocompreensão da própria Igreja e por boa parte da tradição cristã primitiva, os mórmons são cristãos. A definição que mais frequentemente produz um “não” no debate público é a nicena, e essa definição, como veremos, surgiu séculos depois de Cristo e não é a única forma legítima de usar o termo.
1. O significado interno
Os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias afirmam sem hesitação que são cristãos. A própria Igreja define “cristãos” como “nome dado aos que creem em Jesus Cristo.” O restaurador e primeiro profeta dessa época, Joseph Smith, ensinou o mesmo.
Quando perguntado sobre os “princípios fundamentais” da religião, ele disse: “Os princípios fundamentais de nossa religião são o testemunho dos apóstolos e profetas a respeito de Jesus Cristo: que Ele morreu, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, e ascendeu ao céu; e todas as demais coisas são apenas apêndices destes, que dizem respeito à nossa religião.” Cristo é o centro da religião, e nos chamamos de cristãos.
2. O significado secular
No uso comum, “cristão” pode significar várias coisas: quem declara fé em Cristo, quem pertence a uma tradição cristã, quem procura viver segundo princípios cristãos, ou até quem foi batizado. Os dicionários refletem essa variedade: alguns destacam crença, outros pertencimento, outros prática.
Fontes seculares mais amplas, como enciclopédias, descrevem o “cristianismo” como uma tradição de fé centrada na figura de Jesus Cristo e como uma tradição viva que se expressa em crenças, práticas e comunidade. Isso reforça que, no uso comum e descritivo, “cristão” funciona como identidade religiosa e histórica, não como uma lista de requisitos teológicos.
Pesquisas sociológicas confirmam isso. No Religious Landscape Study do Pew Research Center (2023-24), “cristão” é uma categoria de autoidentificação, e membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias aparecem como um grupo específico dentro do panorama cristão, em torno de 2% dos respondentes, e não como “outras religiões”. Ou seja: quando instituições seculares sérias classificam religiões de forma descritiva e empírica, os mórmons são classificados como cristãos.
Quando instituições seculares sérias classificam religiões de forma descritiva e empírica, os mórmons são classificados como cristãos.
3. O significado denominacional
Aqui é onde o debate geralmente pega fogo, porque muitas tradições usam “cristão” como termo de fronteira: quem está “dentro” ou “fora” do cristianismo verdadeiro. É importante entender esses argumentos com honestidade, e depois avaliar se eles realmente sustentam a conclusão que pretendem.
”Cristão” como “quem é salvo”
Alguns grupos, especialmente em ambientes evangélicos, falam como se “ser cristão” fosse praticamente sinônimo de “ser salvo”. Mas isso não é uniforme até entre eles, e mesmo quando aparece, vem carregado de outras perguntas: o que é requerido para ser salvo? Esse uso transforma “cristão” de uma descrição em um julgamento, algo que a própria palavra não carrega originalmente, como veremos na seção bíblica.
Muita gente que diz “os mórmons não são cristãos” está querendo dizer que estamos em perigo de não ser salvos. Muito obrigado pelo aviso, e se puder realmente me mostrar algo mais verdadeiro do que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ensina, eu seguirei aquilo. Mas por enquanto nada tem me convencido.
”Cristão” como dentro do credo
Para o cristianismo histórico, católico, ortodoxo e grande parte do protestantismo clássico, um critério muito comum é: cristão quer dizer quem confessa a fé apostólica segundo os credos históricos, especialmente a doutrina de Deus expressa no Credo Niceno. Esse credo explica que Jesus Cristo é consubstancial ao Pai, ou seja, um Ser mas pessoas diferentes. Essa explicação empresta princípios metafísicos de filósofos gregos para explicar como Deus o Pai é Deus, mas também Jesus Cristo o Filho é Deus.
Do lado SUD, a Igreja afirma que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, mas não adota a formulação nicena clássica. Então, alguns cristãos que apoiam o Credo Niceno concluem: “vocês falam ‘Pai, Filho e Espírito Santo’, mas não querem dizer a mesma coisa que nós; portanto, não é a mesma fé.”
Agora, aqui está o problema com esse critério como definição exclusiva de “cristão”: ele é posterior ao próprio cristianismo. O Credo de Niceia surge em 325 d.C. como uma formulação oficial para resolver disputas específicas sobre a relação do Filho com o Pai. O texto que muitos chamam de “Credo Niceno” hoje é na verdade associado ao Concílio de Constantinopla (381 d.C.). Niceia não “inventou” a crença em Jesus como divino; formalizou e delimitou uma linguagem para disputas que já existiam. Mas isso significa que comunidades cristãs existiram e se identificaram como cristãs por três séculos antes dessa formulação. O credo funcionou como um critério de delimitação doutrinária dentro do cristianismo já existente, não como a certidão de nascimento do cristianismo em si. É parecido com dizer que só é brasileiro quem nasceu depois da Constituição de 1988: a Constituição definiu regras importantes, mas não criou a nação.
O critério católico do batismo
Um exemplo prático de como definições denominacionais funcionam: a Igreja Católica tem uma resposta oficial dizendo que não considera válido o batismo SUD. (Tudo bem, eu também não acredito que o batismo deles é válido.) Isso não prova “quem está certo”; mas mostra que, para certos sistemas, “cristão” envolve também sacramentos, intenção teológica e pertencimento eclesial, e não só o rótulo ou a devoção pessoal.
Mas observe: essa é uma definição interna da Igreja Católica, que reflete a teologia católica do batismo. Ela não é um veredito universal sobre quem é ou não cristão. Da mesma forma, protestantes em geral não reconhecem vários elementos sacramentais católicos, e nem por isso deixam de ser cristãos.
4. O significado bíblico
Esta é, a meu ver, a seção mais importante. Se estamos falando sobre quem é cristão, faz sentido começar pela Bíblia em primeiro lugar.
”Cristão” em Atos: um nome dado de fora
A Bíblia usa pouco a palavra “cristão”. Em Atos 11:26, o texto dá a entender que “cristãos” foi um nome dado aos discípulos por outros, um rótulo público de identificação social que depois foi assumido. Isso, por si só, já é significativo: a palavra nasceu como descrição externa de quem seguia Cristo, não como resultado de um teste teológico.
O núcleo bíblico: discípulo de Jesus Cristo
Mesmo sem uma lista de requisitos com a palavra “cristão”, o Novo Testamento descreve discípulos por marcas bem claras: fé e confissão em Jesus, arrependimento, obedecer aos Seus ensinamentos, amor como sinal visível, e batismo como resposta normal de entrada (em Atos).
Esse conjunto é importante porque desloca o debate do rótulo para o conteúdo: o que caracteriza alguém como seguidor de Jesus? Para mim, quem você é e o que você faz diz muito mais do que ter a teologia certa sobre a consubstanciação de Deus.
E aqui está o ponto que muitas vezes passa despercebido: o Novo Testamento não apresenta a fórmula nicena como critério para o rótulo “cristão”. Isso não significa que o Novo Testamento não tenha critérios de fé, pois tem. Mas o arcabouço trinitário específico que muitos usam como régua veio séculos depois. O padrão bíblico é centrado em seguir Jesus, confessá-Lo como Senhor e Salvador, e viver segundo Seus ensinamentos. E isso é exatamente o que os Santos dos Últimos Dias fazem e confessam.
Para qualquer pessoa que leva a Bíblia a sério, essa deveria ser a definição com maior peso. E pelo padrão do Novo Testamento, os membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias estão plenamente alinhados.
O Novo Testamento não apresenta a fórmula nicena como critério para o rótulo “cristão”. O padrão bíblico é centrado em seguir Jesus, confessá-Lo como Senhor e Salvador, e viver segundo Seus ensinamentos. E isso é exatamente o que os Santos dos Últimos Dias fazem e confessam.
5. O significado dos Pais da Igreja Primitiva (séc. II-III)
Os Pais da Igreja não dão uma definição de dicionário de cristão. Na prática, eles identificam cristãos por critérios como confissão de fé em Cristo, conduta moral, batismo, pertencimento à Igreja e fidelidade à fé apostólica. Bem cedo, “cristão” vira nome assumido: em relatos de martírio, aparece a confissão pública “sou cristão”; em textos apologéticos, é o nome pelo qual eram acusados e julgados.
Com o tempo, alguns Pais traçam linhas mais duras. A “regra de fé” vira fronteira, “heresia” e “cisma” passam a ser tratados como saídas da identidade cristã, e a comunhão com a Igreja visível ganha peso enorme, especialmente em autores como Cipriano.
Para os Santos dos Últimos Dias, há pontos de contato importantes: confissão de Cristo, disciplina moral, vida de discipulado e batismo são temas centrais nos escritos patrísticos, e são terreno onde SUD afirma com convicção sua fé. Já o critério de continuidade eclesial é mais complicado. Mas esse é um critério de continuidade institucional, não de fé em Cristo, e vale notar que muitos protestantes rejeitam exatamente esse critério. Isso é legítimo, mas significa que o critério patrístico de Cipriano também excluiria os próprios protestantes que o invocam contra os Santos dos Últimos Dias. Quem invoca os Pais da Igreja precisa estar disposto a aceitar o pacote inteiro.
6. Pesando as evidências
Vamos recapitular. Das cinco definições examinadas:
Três são claramente favoráveis: a definição interna (SUD se vê como cristão e coloca Cristo no centro), a definição secular (instituições sérias classificam SUD dentro do cristianismo) e a definição bíblica (o NT define discípulo por fé, confissão e obediência a Cristo, sem exigir a fórmula nicena).
Uma é mista: os Pais da Igreja apresentam critérios com pontos de contato importantes com a fé SUD (confissão de Cristo, vida moral, batismo), embora também valorizem continuidade institucional, um critério que excluiria igualmente os protestantes, e divide os católicos e os ortodoxos.
A que mais frequentemente produz um “não” no debate público é a nicena (com o critério católico do batismo como variação dentro desse mesmo campo). E essa é a definição que surgiu mais tarde historicamente, que não aparece no Novo Testamento como critério para o rótulo “cristão” e que funciona como delimitação interna de certas tradições, não como a definição universal do que é ser cristão.
Isso não significa que o argumento niceno seja desonesto ou irrelevante. É perfeitamente coerente dentro do sistema deles. Mas é importante reconhecer que é um critério entre vários, e não o mais antigo, nem o mais bíblico, nem o mais amplamente usado.
Conclusão
A palavra “cristão” quer dizer muitas coisas para muitas pessoas. Por isso, conversas sobre se os mórmons são cristãos costumam dar errado: as pessoas trocam de definição no meio do caminho.
Mas quando examinamos o peso das evidências, a conclusão é clara. Se “cristão” significa “alguém que crê em Jesus Cristo, O confessa como Salvador e tenta segui-Lo”, e esse é o uso mais antigo do termo, o sentido bíblico e o sentido mais comum, então sim, os mórmons são cristãos. E não são cristãos marginais ou de segunda classe: são pessoas que colocam Jesus Cristo no centro absoluto da sua fé, das suas reuniões e da sua vida.
Eu sou membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Eu creio no Jesus Cristo do Novo Testamento, que nasceu, viveu, morreu, ressuscitou e vive (e fala hoje). E eu convido qualquer pessoa de boa-fé a olhar para o que nós realmente cremos, praticamos e ensinamos antes de decidir se somos cristãos ou não.
REFERÊNCIAS
- “Christians”: Guide to the Scriptures (definição SUD de “cristãos”). churchofjesuschrist.org
- “Are Mormons Christian?”: FAQ oficial da Igreja. faq.churchofjesuschrist.org
- Elders’ Journal (July 1838): fonte primária da citação “fundamental principles… appendages.” josephsmithpapers.org
- “Response to a Dubium… on the validity of baptism…”: Congregation for the Doctrine of the Faith (Vaticano), 5 June 2001. vatican.va
- “The Question of the Validity of Baptism…” (Ladaria). vatican.va
- Michaelis: verbete “cristão.” michaelis.uol.com.br
- Dicio: verbete “cristão.” dicio.com.br
- Encyclopaedia Britannica: “Christianity.” britannica.com
- Pew Research Center: Religious Landscape Study (2023-24). pewresearch.org
- Pew Research Center: FAQ “How Pew Research Center Surveys Religion.” pewresearch.org
- Britannica: First Council of Nicaea (325). britannica.com
- Britannica: First Council of Constantinople (381). britannica.com
- Britannica: Nicene Creed (história 325-381). britannica.com

